NICOLAU MAQUIAVEL | Como Se Tornar um Mestre da Manipulação? | HISTÓRIA PARA DORMIR

Resumo Breve

O vídeo explora a vida e as ideias de Nicolau Maquiavel, enfocando sua trajetória desde a sua infância em Florença até suas contribuições permanentes para o pensamento político. Discute o contexto histórico em que viveu, suas interações com figuras influentes daquela época e a evolução de suas teorias políticas.

  • Maquiavel foi moldado pela tumultuada política de sua época em Florença.
  • Suas ideias em "O Príncipe" revolucionaram a forma como a política é vista, separando-a da moral tradicional.

Introdução

O vídeo inicia com um convite para uma viagem ao Renascimento Italiano, focando em Nicolau Maquiavel, um pensador controverso e influente. O autor questiona se Maquiavel era um conselheiro inescrupuloso dos tiranos ou um patriota tentando salvar sua pátria. Destaca a importância de entender o ambiente da época, caracterizado por guerras e intrigas políticas, que moldou a vida e as obras de Maquiavel.

A atmosfera da época

A Itália do final do século XV era fragmentada e dominada por guerras e conspirações. Florença, um centro cultural e político, era governada pela família Médici, cuja influência era, no entanto, frágil. Durante esse período conturbado, Maquiavel nasceu e cresceu em um cenário de grande efervescência cultural e política.

Nascimento e formação de Maquiavel

Nicolau Maquiavel nasceu em 1469 em uma família de nobreza empobrecida em Florença. Desde jovem, recebeu uma educação sólida, onde estudou latim, clássicos e obras de historiadores e filósofos. Essa base educacional moldou sua visão política e sua compreensão da natureza humana.

A influência dos autores clássicos

Os clássicos, como Tito Lívio e Cícero, foram fundamentais para a formação das ideias de Maquiavel. Ele aprendeu sobre virtude e perspicácia política através desses textos, que se tornaram uma escola de sabedoria em sua vida.

A era de Savonarola

Durante a era de Savonarola, um pregador que criticava o luxo e a decadência moral em Florença, Maquiavel observou a influência do fanatismo religioso e a luta pelo poder. Savonarola estabeleceu uma república teocrática que rapidamente caiu devido à sua política severa e conflito com o Papa.

A queda de Savonarola e o início da carreira política de Maquiavel

Após a queda de Savonarola, Maquiavel ingressou na política em 1498, sendo nomeado secretário da chancelaria da República Florentina. Seu papel lhe permitiu se envolver em assuntos diplomáticos e políticos, contribuindo significativamente para o governo da cidade.

O serviço diplomático

Maquiavel prestou serviços diplomáticos em várias missões, envolvendo-se com governantes europeus e adquirindo uma experiência inestimável. Observou a dinâmica do poder, intrigas e alianças, que contribuíram para suas reflexões sobre política.

O encontro com César Bórgia

O encontro com César Bórgia, versão viva do governante ideal que Maquiavel acreditava ser necessário para unir a Itália, impressionou profundamente o pensador. Ele descreveu como Bórgia utilizava força e engano para alcançar seus objetivos, inspirando-o em suas obras.

O início da carreira de Maquiavel

Maquiavel, ao se envolver na política, se tornou uma figura fundamental na República Florentina. Sua experiência na diplomacia e no serviço público convergiu para a formulação de suas ideias políticas.

A queda da República Florentina

A invasão espanhola em 1512 resultou na derrota da República Florentina e no retorno da família Médici ao poder. Isso marcou o colapso do mundo em que Maquiavel havia dedicado sua vida política.

Prisões e tortura

Após a queda da república, Maquiavel foi preso e torturado sob a acusação de conspiração contra os Médici. Ele resistiu à tortura e não incriminou a si mesmo, mantendo sua integridade durante o encarceramento.

A vida no exílio

Após ser libertado, Maquiavel viveu em exílio forçado, afastado da vida política. Durante esse período, ele cultivou seus pensamentos e fez reflexões profundas sobre sua experiência, levando à criação de "O Príncipe".

A criação de "O Príncipe"

No exílio, Maquiavel escreveu "O Príncipe", um resultado de sua sabedoria política e uma tentativa de retornar à grande política. O livro é um apelo à liderança apropriada para unificar a Itália.

Uma revolução no pensamento político

O livro representa uma mudança fundamental na forma como a política é entendida, enfatizando a necessidade de olhar para o poder sem se deixar levar por ideais morais ou religiosos.

Introdução à filosofia de Maquiavel

Maquiavel discute conceitos centrais como "Virtù" e "Fortuna", reconhecendo que, embora o destino desempenhe um papel, a ação e a bravura individual podem moldar a realidade.

Virtù e Fortuna

A "Virtù" é entendida como a capacidade de um governante de controlar seu destino. Já a "Fortuna" é o acaso que influencia os eventos, sendo importante que os líderes se preparem para possíveis adversidades.

As imagens da Fortuna

Maquiavel usa metáforas, como a do rio impetuoso, para descrever como a Fortuna pode arrasar tudo pela frente, mas também destaca que aqueles que se preparam podem resistir à tempestade.

O conceito de Virtù

"Virtù", para Maquiavel, refere-se à habilidade de um governante em influenciar eventos e moldar seu destino, com foco na energia, determinação e astúcia.

A visão pessimista da natureza humana

Maquiavel acredita que os seres humanos são, em essência, egoístas e traiçoeiros. Assim, o governante deve estar ciente de sua natureza e ser estratégico em suas ações.

Inspirar amor ou temor

Maquiavel conclui que é mais seguro inspirar temor do que amor, já que o amor pode ser volúvel, enquanto o temor é mantido pela ameaça de punição.

A alegoria do leão e da raposa

O príncipe deve emular tanto o leão quanto a raposa: ser forte e temido, mas também astuto e prudente em reconhecer perigos e evadir armadilhas.

A arte da dissimulação

Maquiavel ressalta que, na política, a aparência é fundamental. O príncipe deve parecer virtuoso, mesmo que, internamente, não mantenha todas as virtudes que demonstra.

Generosidade e avareza

Maquiavel argumenta que a generosidade excessiva pode levar um governante à ruína. Um príncipe deve ser parcimonioso para garantir a estabilidade financeira do Estado.

A crueldade

A crueldade só deve ser aplicada quando necessária e, idealmente, feita de forma a garantir a segurança e a estabilidade do Estado. A crueldade mal aplicada, no entanto, gera ressentimento e descontentamento.

O arsenal do príncipe segundo Maquiavel

Maquiavel expõe que as ações do príncipe devem ser guiadas por resultados, onde os fins podem justificar os meios que, tradicionalmente, seriam considerados imorais.

Os fins e os meios

Para Maquiavel, a eficácia política se baseia na realidade e não na moralidade; os governantes devem priorizar a manutenção do poder e a ordem do Estado em suas decisões.

Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio

Maquiavel realiza uma análise histórica, tratando da importância de um governo estável e dos conflitos internos, abrangendo lições da República Romana que são aplicáveis à Itália de sua época.

As duas faces de Maquiavel

O pensador é retratado sob duas perspectivas distintas: como um defensor da tirania em "O Príncipe" e como um republicano em sua obra "Discursos".

O retorno a Florença

Após anos de exílio, Maquiavel voltou a Florença, mas enfrentou a rejeição por parte dos novos líderes republicanos que viam nele um traidor.

Maquiavel e seu círculo

Maquiavel se associou a um círculo de jovens aristocratas republicanos, onde compartilhou suas ideias e leu trechos de suas obras, promovendo discussões sobre política.

As lições da história romana

Ao revisar a história de Roma, Maquiavel tenta identificar e extrair lições que possam ser aplicadas à sua própria situação política na Itália, buscando a conexão entre passado e presente.

O povo é mais sábio que o príncipe

Nos "Discursos", Maquiavel defende a ideia de que o povo possui uma sabedoria coletiva superior à dos governantes absolutos, enfatizando a importância de um governo republicano.

Conflitos e liberdade

Maquiavel acredita que a presença de conflitos dentro de um estado pode ser benéfica, levando ao desenvolvimento de leis e instituições que protegem a liberdade do povo.

A religião civil e a crítica ao cristianismo

Ele critica a religião cristã como um meio que enfraquece a virtude cívica, defendendo a ideia de uma religião civil que incentive a lealdade e a virtude entre os cidadãos.

A conciliação entre "O Príncipe" e os "Discursos"

O vídeo explora as contradições entre as duas principais obras de Maquiavel e como cada uma reflete diferentes circunstâncias políticas, abordando a necessidade de um governante forte em tempos de crise.

O legado de Maquiavel

Após sua morte, as obras de Maquiavel influenciaram profundamente o pensamento político, gerando controvérsia e sendo frequentemente mal interpretadas ao longo da história.

De volta às boas graças

Maquiavel tenta retornar à política florentina e, eventualmente, ganha a oportunidade de escrever a história de Florença para os Médici, embora tenha que equilibrar suas crenças republicanas com as exigências do novo regime.

A História de Florença

Maquiavel escreve uma história de Florença sob os Médici, abordando o tumulto nas relações políticas, mas ao fazê-lo critica indiretamente a fragilidade do governo deles.

Dramaturgia e a arte da guerra

Ele se destaca também como dramaturgo, escrevendo "Amandrágora", uma comédia que reflete suas ideias e a natureza humana sob uma perspectiva sarcástica.

O Saque de Roma e a restauração da república

O saque de Roma em 1527 desencadeia uma série de eventos que leva à restauração da República em Florença, trazendo esperanças renovadas ao povo.

Morte e legado

Maquiavel faleceu em 1527, um mês após a restauração da república, sem poder participar das novas mudanças políticas. Sua morte marca um final trágico a sua busca pela liberdade política.

A evolução da percepção

Embora tenha sido visto como um cínico e perverso, suas ideias passaram a ser reinterpretadas, especialmente no contexto de unificação da Itália, transformando-o em um símbolo da luta pela liberdade.

A revolução copernicana no pensamento político

Maquiavel é reconhecido por ter revolucionado a política ao separá-la da moral tradicional, propondo uma análise objetiva da luta pelo poder, cujas questões permanecem relevantes até hoje.

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0:00 Parte um. Florença na fornalha das mudanças. O nascimento de um pensador. Olá, senhoras e senhores. Vocês estão no canal Adormeça e Evolua. Hoje embarcaremos juntos em uma viagem no tempo rumo ao próprio coração do Renascimento Italiano para conhecer uma das figuras mais controversas e influentes da história do pensamento político, Nicolau Maquiavel. A nossa narrativa não é apenas um relato seco de uma biografia, mas uma tentativa de compreender o homem, cujo nome se tornou um substantivo comum, sinônimo de astúcia e cinismo na política. Tentaremos descobrir quem realmente foi

0:45 esse Florentino. Um conselheiro inescrupuloso de tiranos ou um patriota que buscava desesperadamente maneiras de salvar a sua pátria. Para compreender plenamente a dimensão da personalidade de Maquiavel e a profundidade de suas ideias, precisamos mergulhar na atmosfera daquela época, naquele caldeirão fervente, onde se fundiam os destinos de estados e povos. A península apenina do final do século XV e início do século X era uma colxa de retalhos de cidades estado rivais, ducados e domínios papais. Era um tempo de guerras incessantes, intrigas políticas e conspirações. A Itália fragmentada e fraca tornou-se a

1:32 arena de luta de poderosas potências europeias, a França e a Espanha, que buscavam subjugar suas terras ricas e prósperas. Florença, o berço de gênios. No centro desse turbulento cenário histórico estava a Florença, A Joia da Toscana, cidade de banqueiros. comerciantes, artistas e pensadores. Foi exatamente aqui, neste berço do renascimento, que em 3 de maio de 1469, na família do advogado Bernardo de Nicoló Maquiaveli, nasceu um filho a quem deram o nome de Nicolau. A família Maquiavel pertencia a uma antiga, embora empobrecida, linhagem nobre. Seu pai, Bernardo, era doutor em

2:20 direito e ocupava um cargo modesto, o que, ainda assim lhe permitiu dar ao filho uma excelente educação para os padrões da época. O jovem Nicolau absorvia o conhecimento com avidez, estudava latim e os clássicos italianos e lia com entusiasmo as obras de historiadores e filósofos da antiguidade. Tito Lívio: Cícero, Plutarco. Esses livros tornaram-se para ele não apenas uma fonte de conhecimento, mas também uma escola de sabedoria política, da qual extraía exemplos de virtude e perspicácia de estado. A florença em que Maquiavel cresceu e amadureceu era uma cidade de contrastes. Por um lado, era o

3:07 centro da cultura humanista, onde criavam as maiores mentes e talentos da época do renascimento. Por outro, era a arena de uma feroz luta política. Durante décadas, a cidade foi governada na prática pela família Mice, poderosos banqueiros, cuja influência se estendia muito além dos limites de Florença. Contudo, o poder deles era frágil e a cidade era constantemente abalada por conspirações e revoltas. A era de Savonarola, fanatismo religioso e tempestades políticas. Um dos períodos mais dramáticos da história de Florença, testemunhado pelo jovem Maquiavel, foi a era do governo do monge dominicano

3:53 Girólamo Savonarola. Esse pregador ardente que atacava com sermões furiosos o luxo e a decadência moral da sociedade florentina, conseguiu capturar por um tempo as mentes e os corações dos cidadãos. No ano de 1494, quando o rei francês Carlos VII invadiu a Itália, os médicos se foram expulsos de Florença e Savonarola tornou-se, na prática o governante da cidade. Ele estabeleceu na cidade uma república teocrática, apelando ao arrependimento e a renúncia aos bens mundanos. O símbolo de seu governo foram as chamadas fogueiras das vaidades, nas quais eram queimadas obras de arte, livros,

4:40 instrumentos musicais e outros artigos de luxo. Maquiavel, sendo um homem secular e pragmático, observava esse frenesi religioso com um ceticismo aberto. Em uma de suas primeiras cartas, ele criticou as ações de Savonarola, vendo nele um profeta desarmado, cujo poder, desprovido de força militar real, estava fadado ao fracasso. E de fato, o governo de Savonarola durou pouco. Sua política severa e o conflito com o Papa Alexandre VI Borja fizeram com que os admiradores entusiasmados do dia anterior lhe dessem as costas. No ano de 1498, Savonarola foi capturado, acusado de

5:26 heresia e queimado publicamente na Praça da Senhoria, a mesma praça onde pouco tempo antes ardiam as fogueiras das vaidades. O início da carreira política. A queda de Savonarola abriu para Maquiavel o caminho para a grande política. No mesmo ano de 1498, aos 29 anos de idade, ele entra para o serviço da República Florentina. Ele é nomeado secretário da segunda chancelaria, encarregada dos assuntos internos e depois também secretário do Conselho dos 10, que respondia pela diplomacia e pelos assuntos militares. Esse era um cargo fundamental que lhe permitiu mergulhar no próprio âmago da

6:12 vida política. Ao longo dos 14 anos seguintes, Maquiavel serviu fielmente à República. Ele cumpriu inúmeras missões diplomáticas, conduziu negociações com governantes italianos e europeus e redigiu relatórios e notas analíticas. Suas missões o levaram à corte do rei francês Luís X, ao imperador do Sacro Império Romano Germânico Maximiliano I, e ao Papa Júlio II. Essas viagens lhe deram uma experiência inestimável e uma oportunidade única de observar os mecanismos do poder em ação. Ele viu como se tecem intrigas, como se firmam e desmoronam alianças, e como os poderosos deste mundo, sem escrúpulos

6:59 quanto aos meios, lutam por poder e influência. O encontro com César Borgia. A encarnação do príncipe. Uma das impressões mais fortes durante os anos de serviço diplomático para Maquiavel. Foi o encontro com César Borgia, o Duque Valentino, filho do Papa Alexandre VI. Esse jovem ambicioso e absolutamente implacável condotiero que buscava criar seu próprio estado na Itália central, tornou-se para Maquiavel a encarnação viva do tipo de governante que, em sua opinião, era necessário para unificar a Itália fragmentada. Maquiavel observava com admiração e horror as ações de Borr, sua audácia,

7:46 determinação e habilidade em usar a força e o engano para alcançar seus objetivos. Em seus despachos para a Florença, ele descrevia detalhadamente os métodos pelos quais o duque agia. Foi justamente a figura de César Borgia, que serviu em grande parte, de base para a obra mais famosa de Maquiavel. O tratado, o príncipe, a criação da milícia popular. Além da diplomacia, Maquiavel também se ocupava ativamente de questões militares. Ele era um defensor convicto da criação em Florença, de um exército próprio, composto por cidadãos e não por mercenários. Naquela época, as cidades estado

8:31 italianas recorriam amplamente aos serviços dos condotiros, líderes de tropas mercenárias que eram pouco confiáveis, gananciosos e prontos para trair seu contratante a qualquer momento. Maquiavel considerava com razão que um estado cuja segurança depende de um exército mercenário não pode ser nem forte nem independente. Graças à sua persistência, no ano de 1506, foi criada em Florença, a milícia popular. E Maquiavel foi nomeado secretário da comissão que dirigia esse novo exército. Essa foi uma de suas principais conquistas no serviço público, da qual ele se orgulhava com razão. Assim, passo a passo, no crisol das tempestades políticas e intrigas

9:17 diplomáticas, formava-se a visão de mundo de Nicolau Maquiavel. Os anos passados a serviço da República Florentina tornaram-se para ele uma verdadeira escola da vida que lhe proporcionou um riquíssimo material para suas obras futuras. Ele viu a ascensão e a queda de governantes, observou como se decidem os destinos dos estados e refletiu sobre a natureza do poder, sobre a relação entre a força e a moral, sobre o que é necessário para a criação de um estado forte e próspero. Essas reflexões servirão de base para suas obras imortais, sobre as quais falaremos na próxima parte da nossa palestra. Parte dois.

10:03 O exílio, o desespero e o nascimento de O príncipe. Na parte anterior da nossa palestra, deixamos Nicolau Maquiavel no auge de sua carreira política. Ele era um diplomata respeitado, um secretário de Estado ativo, o criador da milícia florentina, um homem cuja vida estava indissoluvelmente ligada ao serviço de sua república natal. Ele acreditava no futuro dela e dedicava todas as suas forças para fortalecê-la. Mas a roda da fortuna, sobre cujos caprichos ele tanto refletiria posteriormente, deu uma guinada brusca e impiedosa. O colapso de um mundo, a queda da república e o retorno dos médice. O início do século X foi marcado por uma

10:51 nova fase das guerras italianas. A República Florentina, que era aliada da França, viu-se em uma posição extremamente vulnerável, quando o Papa Júlio I, apelidado de O Papa terrível, formou contra os franceses a chamada Santa Liga, que incluía a Espanha, Veneza e a Inglaterra. No ano de 1512, as tropas espanholas, sob o comando de Raimundo de Cardona invadiram o território da Toscana. A milícia criada por Maquiavel, seu principal orgulho e esperança, não resistiu ao primeiro teste sério. Na batalha de Prato, uma pequena cidade perto de Florença, soldados maltreinados e inexperientes foram completamente

11:37 derrotados por veteranos espanhóis calejados em combate. A cidade foi entregue ao saque e a notícia do massacre brutal em prato chegou instantaneamente à Florença, espalhando o pânico entre seus cidadãos. O governo da República, privado de apoio militar e diante da ameaça de destruição total da cidade, capitulou: "O poder em Florença passou novamente para as mãos da família Médice, que retornou à cidade na retaguarda do exército espanhol. Para Nicolau Maquiavel, isso não foi apenas uma mudança de poder, foi o colapso de todo o seu mundo. Durante 14 anos, ele serviu a república com lealdade e devoção. E agora essa república deixara

12:24 de existir. Assim como muitos outros partidários do regime republicano, ele foi imediatamente destituído de todos os seus cargos. O novo governo dos Médice via nele um homem perigoso e indigno de confiança, prisão, tortura e um ano no exílio. Os infortúnios de Maquiavel não terminaram aí. Em fevereiro de 1513, foi descoberta uma conspiração contra os Mice, liderada por dois jovens republicanos, Pietro Paolo Boscol e Agostino Caponi. Na lista de potenciais apoiadores da conspiração, encontrada com um deles, constava também o nome de Nicolau Maquiavel.

13:09 se isso foi uma coincidência ou se ele realmente teve algum contato com os conspiradores. Ainda hoje permanece sendo objeto de debate entre os historiadores. O próprio Maquiavel negou seu envolvimento até o fim da vida. Mesmo assim, ele foi preso e jogado na prisão de Bargelo. Lá foi submetido a torturas cruéis. Ele foi isado quatro vezes no cavalete de cordas enquanto exigiam a confissão de sua participação na conspiração. Foi uma provação terrível, capaz de quebrar até mesmo pessoas de espírito mais forte. Mas Maquiavel resistiu. Ele não incriminou nem a si mesmo, nem aos outros. Em um dos sonetos escritos na prisão e endereçados a Giuliano de

13:56 Médice, ele descreveu seu estado com amarga ironia, queixando-se de que seu corpo estava mutilado e as paredes da prisão apinhadas de piolhos. Ele teve sorte. Logo após sua prisão, morreu o Papa Júlio II. E como novo papa, sob o nome de Leão X, foi eleito o cardeal Giovani de Médice, filho de Lourenço, o magnífico. Esse acontecimento gerou em Florença uma anistia geral pela qual Maquiavel também foi beneficiado. Ele foi libertado da prisão, mas proibido de exercer qualquer atividade política e obrigado a não deixar os limites do território florentino durante um ano. Sim. Aos 44

14:43 anos de idade, cheio de vigor e conhecimento, o experiente estadista e diplomata viu-se deixado de lado. Ele foi banido da vida política, privado de seu amado trabalho, que era para ele a razão de sua existência. Maquiavel retirou-se para sua modesta propriedade em Santa Andrea, em Percusina, perto de Florença. Noites na Companhia dos Grandes, o nascimento de um projeto. A vida no exílio era torturante para ele. Durante o dia, ocupava-se de pequenos afazeres domésticos, supervisionava o trabalho no vinhedo, conversava com os lenhadores, jogava cartas e dados com os moradores locais na taverna. Essa rotina

15:29 cotidiana, cheia de preocupações vazias e mesquinhas, o oprimia, mas chegava à noite e acontecia uma transformação. Em sua famosa carta ao amigo Francesco Vetori, de 10 de dezembro de 1513, Maquiavel descreve detalhadamente o seu dia. Este é um dos documentos mais importantes para a compreensão de sua personalidade e de seu processo criativo. Ao cair da noite, escreve ele, volto para casa e entro no meu escritório. Na porta dispo a roupa cotidiana, suja de lama e poeira, visto trajes reais e cortesãos, e assim dignamente vestido adentro as cortes antigas dos homens da

16:15 antiguidade, onde, amorosamente recebido por eles, saciu-me daquele alimento que é o único para o qual nasci. No silêncio de seu escritório, cercado de livros, ele mantinha um diálogo mental com os grandes historiadores e políticos do passado, com tito Lívio e Tácito, com políbio e Xenofonte. Ele lhes perguntava sobre as causas da ascensão e queda dos estados, analisava suas ações e tentava extrair de suas experiências lições para o presente. "Mergulho inteiramente neles", confessa ele na carta. E como Dante diz que não faz ciência quem ouve e não guarda na memória, anotei o que extraí de suas

17:01 conversas e compus um livrinho sobre os principados. Assim, no silêncio do exílio, das profundezas do desespero e da inatividade forçada, nasceu sua obra mais famosa e mais escandalosa, O Príncipe. Este livro, de pequeno volume não foi fruto de reflexões acadêmicas abstratas. Foi um grito da alma, uma tentativa desesperada de retornar à grande política. Era uma espécie de currículo no qual Maquiavel queria demonstrar aos novos governantes de Florença, os Mice, toda a profundidade de seus conhecimentos e sua indispensabilidade como conselheiro. A quem o príncipe é endereçado?

17:47 Inicialmente, Maquiavel pretendia dedicar seu livro a Giuliano de Mice, Duque de Nemurs, irmão mais novo do Papa Leão X. Ele esperava que Giuliano, ao se tornar governante de Florença, aproveitasse seus conselhos. No entanto, Juliano logo deixou Florença e Maquiavel mudou a dedicatória, endereçando sua obra a Lourenço de Médice, Duque de Urbino, sobrinho do Papa, que se tornou o novo governante da cidade. Nessa dedicatória, Maquiavel fala abertamente sobre suas intenções. Ele escreve que não pode oferecer ao governante presente mais valioso do que o conhecimento dos feitos dos grandes homens, adquirido por mim através de uma longa experiência nos

18:33 assuntos modernos e de um estudo contínuo dos antigos. Ele oferece sua obra como a quinta essência de tudo o que aprendeu e compreendeu durante longos anos de serviço e reflexão. Mas o príncipe não foi apenas uma tentativa de conseguir um cargo. Neste livro, Maquiavel expressou também o seu maior sonho, a sua esperança mais íntima. Ele via novo governante da casa dos Médice um potencial unificador da Itália, aquele que finalmente poderia livrar o país dos invasores estrangeiros, os bárbaros, como ele os chamava, e criar um estado forte e unificado. O capítulo final de O Príncipe é um apelo apaixonado aos médic

19:18 para que assumam essa missão histórica. Uma nova ciência da política. O que exatamente havia de tão revolucionário e chocante neste pequeno livro? Maquiavel realizou uma reviravolta no pensamento político. Maquiavel estabeleceu para si mesmo uma tarefa completamente diferente. Ele decidiu descrever a política tal como ela realmente é. Ele deixou de lado os dogmas morais e religiosos e olhou para o poder com a visão sóbria e imparcial de um cientista naturalista. O que lhe me interessava não era a vida imaginada, mas a verdade efetiva das coisas. Ele proclamou que a política tem suas próprias leis, que muitas vezes não coincidem com as leis

20:04 da moral cristã. O objetivo principal do príncipe, segundo Maquiavel, é a manutenção do poder e o fortalecimento do Estado. E para alcançar esse objetivo, todos os meios são válidos. Esta é a tese central que deu origem ao conceito de maquiavelismo. O príncipe, se as circunstâncias assim o exigirem, deve saber afastar-se do bem. Ele deve ser tanto leão para assustar os lobos quanto raposa para evitar as armadilhas. Foi justamente essa análise implacável da política real, essa constatação franca de que na luta pelo poder, a virtude muitas vezes se mostra impotente, enquanto o vício se mostra

20:49 eficaz, que fez de o príncipe um dos livros mais lidos e mais amaldiçoados da história da humanidade. Sobre quais conselhos exatamente Maquel dava ao seu príncipe, sobre a relação entre virtude e fortuna? E sobre o que é melhor, inspirar amor ou medo. Falaremos em detalhes na próxima parte da nossa palestra. Parte 3, a anatomia do poder. As lições de O príncipe. Senhoras e senhores, na parte anterior deixamos Nicolau Maquiavel em sua modesta propriedade, onde afastado das funções públicas e com uma saudade insaciável da vida política ativa, ele criou sua obra principal, o Príncipe.

21:35 falamos sobre como este livro se tornou um marco revolucionário que separou a política da moral tradicional e da religião. Hoje vamos olhar para dentro deste famoso tratado e tentar, sem preconceitos, de forma sóbria e atenta, analisar aqueles mesmos conselhos que por séculos tornaram o nome de Maquiavel sinônimo de perfídia e cinismo. Para compreender a lógica de Maquiavel, é necessário assimilar dois conceitos fundamentais que estão na base de toda a sua filosofia: a virtude e a fortuna. A fortuna, uma deusa caprichosa e um rio impetuoso. O destino ou fortuna, na concepção de Maquiavel, não é predestinação, nem

22:21 providência divina. é um conjunto de circunstâncias objetivas, o acaso, a sorte ou o azar, ou seja, tudo aquilo que não depende da vontade humana. Ele escreve que a fortuna governa metade de nossas ações, mas deixa a outra metade, ou quase isso, para ser governada por nós mesmos. Para ilustrar isso, ele utiliza duas imagens marcantes. A primeira é um rio impetuoso. Quando o rio transborda de suas margens, ele arrasta tudo em seu caminho, destrói diques, derruba árvores e inunda os campos. Ninguém tem forças para lhe resistir. Mas, diz Maquiavel, isso não significa que em tempos de calmaria os homens não

23:09 devam se preparar para enchente, construir represas, cavar canais e fortalecer as margens. Da mesma forma, um governante sábio deve, em tempos de paz, prever os possíveis golpes do destino e se preparar para eles, a fim de que, quando o destino se enfurecer, a sua fúria cause o menor dano possível. A segunda imagem é ainda mais provocativa. Maquiavel compara o destino a uma mulher. "A fortuna é mulher", escreve ele. "E se você quiser dominá-la, é preciso bater nela e empurrá-la". Ela cede mais facilmente aos audazes do que aqueles que agem de forma fria e calculista. Essa imagem, é claro, nos choca hoje em dia, mas estava totalmente

23:56 no espírito da época e destacava essa ideia principal. O destino não favorece os passivos e indecisos, mas sim as pessoas ativas, ousadas e enérgicas. A virtude, uma bravura de um novo tipo é justamente essa energia, essa capacidade de resistir ao destino e de moldar ativamente a própria sorte que constitui a virtude. Ela não tem nada em comum com o conceito cristão de virtude moral. Não é humildade, nem piedade, nem misericórdia. Essa virtude é uma fusão de energia, talento bravura astúcia coragem determinação e, o mais importante, compreensão das leis da política real. É

24:43 a capacidade do homem de alcançar o objetivo traçado, usando todos os meios disponíveis, adaptando-se às circunstâncias. O governante que possui essa virtude é aquele que sabe construir represas contra o rio da fortuna e conquistar a deusa caprichosa. E todo o livro O Príncipe é em essência um manual para o desenvolvimento e a aplicação dessa mesma virtude. Uma visão pessimista da natureza humana. Todos os conselhos de Maquiavel baseiam-se em sua visão profundamente pessimista da natureza humana. Deixando de lado as concepções idealistas dos humanistas, ele afirma que em sua essência os homens são maus, ingratos,

25:29 inconstantes, hipócritas, covardes e interesseiros. Sobre os homens em geral, escreve ele, pode-se dizer que são ingratos, volúveis, fingidos, covardes diante do perigo e ávidos por lucro. É exatamente por isso que um príncipe que deseja manter o poder não pode confiar no amor, na gratidão ou na honestidade deles. Ele deve partir do princípio de que pode ser traído a qualquer momento. Essa visão sóbria e cruel das pessoas é o ponto de partida para suas recomendações mais escandalosas. O que é melhor? Inspirar amor ou medo? Esta é talvez a pergunta mais famosa que Maquiavel coloca.

26:15 E a sua resposta a ela é extremamente clara. O ideal, é claro, é quando os príncipes são amados e temidos ao mesmo tempo. Mas como é difícil combinar isso, é muito mais seguro inspirar medo do que amor. Por quê? A sua lógica é simples e impiedosa. O amor, explica ele, é mantido por uma tênue corrente de gratidão que as pessoas, sendo egoístas, rompem em qualquer ocasião conveniente para si mesmas. O medo, por sua vez, é mantido pela ameaça de punição, que nunca é ignorada. O amor dos súditos é uma coisa pouco confiável e inconstante. Hoje eles o exaltam, mas amanhã, se você

27:02 não puder satisfazer as expectativas deles, eles o amaldiçoarão. O medo, contudo, é um sentimento muito mais constante. No entanto, aqui Maquiavel faz uma ressalva importantíssima, da qual seus críticos frequentemente se esquecem. O príncipe deve inspirar medo, mas de forma alguma ódio. O medo é quando os súditos receiam violar a lei, porque sabem que a punição é inevitável. O ódio é quando eles anseiam por derrubar o governante. Para evitar o ódio, ensina Maquiavel, o príncipe precisa abster-se de atentar contra os bens dos cidadãos e dos súditos e contra as suas mulheres. Enquanto não tiram de um homem os seus

27:47 bens e a sua honra, ele vive tranquilo. O ódio, por outro lado, é gerado pelo saque e pela violência. O leão e a raposa, a combinação de força e astúcia. Como então deve agir o príncipe para manter o poder neste mundo? Maquiavel propõe uma alegoria famosa. O governante deve assemelhar-se simultaneamente ao leão e a raposa. Dentre as feras, escreve ele, o príncipe deve escolher duas para imitar, o leão e a raposa. O leão teme as armadilhas e a raposa teme os lobos. Portanto, é preciso ser raposa para reconhecer as armadilhas e leão para afugentar os lobos. O que isso

28:34 significa na prática? O príncipe deve possuir a força do leão para esmagar seus inimigos em combate aberto, para que o temam e o respeitem. Mas apenas a força não é suficiente. Ele também deve ser astuto como uma raposa para prever intrigas, reconhecer ciladas e saber usar o engano e a bajulação. A política não é um torneio de cavalaria onde todos lutam segundo as regras. É um jogo perigoso, onde sobrevive aquele que sabe ser não apenas forte, mas também sagaz. A arte do engano e da quebra da palavra. Dessa lógica decorre mais um conselho chocante. O príncipe não é obrigado a manter a sua palavra se isso prejudicar os seus interesses. Em um

29:21 mundo onde todos enganam, ser extremamente honesto significa condenar a si mesmo. Um governante prudente, afirma Maquiavel, não pode e não deve permanecer fiel à sua promessa se essa fidelidade se voltar contra ele e se desaparecerem os motivos que o levaram a fazê-la. Ele cita como exemplo o Papa Alexandre VI Borgia, que segundo suas palavras nunca fez e nunca pensou em nada além de enganar as pessoas e sempre encontrava um pretexto para isso. E ainda assim sempre teve sucesso porque conhecia bem esse lado da natureza humana. É importante entender. Maquiavel não incentiva a mentir sempre e em todo lugar. Ele fala sobre a necessidade

30:07 política. E aqui mesmo ele dá um conselho sobre como disfarçar esse engano. Para a multidão, o que importa é a aparência. O príncipe não é obrigado a possuir todas as virtudes, mas deve parecer que as possui em público. Ele deve parecer misericordioso, fiel, humano, sincero, piedoso e-lo enquanto for possível. Mas a sua disposição interna deve ser tal que, se necessário, ele possa transformar-se instantaneamente no seu oposto. Generosidade e avareza, os paradoxos da governança. Maquiavel também vira de cabeça para baixo as concepções tradicionais sobre generosidade e avareza. À primeira

30:52 vista, a generosidade parece ser uma excelente qualidade para um governante. Mas Maquiavel prova o contrário. Para ter fama de generoso, o príncipe precisa gastar dinheiro sem limites, promover festas suntuosas e distribuir presentes. De onde tirar recursos para isso? No fim das contas, ele terá de impor impostos exorbitantes aos seus súditos. Isso despertará o ódio deles e o tornará desprezível. Ao se arruinar, ele se tornará uma presa fácil para os inimigos. Portanto, diz Maquiavel, o príncipe não deve temer a fama de Avarento. No início, talvez até o condenem. Mas quando as pessoas virem que, graças à sua parcimônia, as

31:40 receitas do Estado são suficientes para travar guerras e manter o exército sem sobrecarregar a população com novos impostos, elas o considerarão verdadeiramente generoso, pois ele não tira de muitos para presentear poucos sobre a crueldade bem aplicada. Talvez o raciocínio mais cínico de Maquiavel seja aquele sobre a crueldade. Ele divide a crueldade entre bem aplicada e mal aplicada. Pode-se chamar de bem aplicada aquela crueldade que é cometida uma única vez por necessidade de garantir a própria segurança e que depois não se repete, mas pelo contrário, reverte-se em benefício dos súditos.

32:26 Um exemplo clássico que ele cita é a ação de César Borgia na Romanha. Ao conquistar essa região que estava mergulhada em saques e conflitos internos, ele nomeou como governador o cruel e decidido Ramiro de Orco, que rapidamente restabeleceu a ordem, executando inúmeros bandidos. Quando a ordem foi instaurada e a crueldade do governador começou a despertar o ódio do povo, César, para mostrar que não tinha relação com aquilo, ordenou que o próprio Ramiro fosse cortado ao meio e exposto na praça. Dessa forma, com uma única ação cruel, ele tanto pacificou a região quanto acalmou o povo. Já a crueldade mal aplicada é aquela que no início é

33:13 pouca, mas com o tempo não cessa e, pelo contrário, só aumenta. Tais crueldades geram um medo constante, fazem com que os súditos odeiem o governante e, no fim, levam à sua ruína. Os fins justificam os meios? Bem, vamos resumir. Crueldade, engano, quebra de promessas, a capacidade de inspirar medo. Tudo isso faz parte do arsenal do príncipe segundo Maquiavel. Isso significa que ele era um mestre do mal, como muitos o chamavam. Para responder a essa pergunta, é preciso entender qual é o objetivo final pelo qual tudo isso é feito. E esse objetivo não é o enriquecimento pessoal, nem a embriaguez

34:00 pelo poder. O objetivo é o bem do Estado, a estabilidade, a ordem, a segurança e, em última análise, a prosperidade do país. Todo esse remédio amargo, toda essa cirurgia política é necessária para salvar o corpo doente de uma Itália fragmentada e sofredora. Maquiavel escreve o seu tratado na esperança de que surja um governante forte que usando esses métodos consiga unificar o país e expulsar os bárbaros. A famosa frase os fins justificam os meios, frequentemente atribuída a Maquiavel, adquire exatamente esse sentido dentro do seu sistema. O objetivo supremo, o bem da pátria, pode justificar meios que, do ponto de vista

34:46 da moral privada, são criminosos, tendo criado. O príncipe Maquiavel, contudo, não parou por aí. parou naqueles mesmos anos de exílio. Ele trabalhou em uma obra de espírito completamente diferente, os discursos sobre a primeira década de Tito Lívio, onde ele se apresenta diante de nós não mais como o conselheiro de um monarca, mas como um republicano convicto. Parte 4. A alma da república. Discurso sobre a primeira década de Tito Lívio. Em nossa última parte, analisamos detalhadamente a anatomia do poder, apresentada por Nicolau Maquiavel em seu tratado mais famoso, o Príncipe. Vimos um governante que, pelo bem do Estado,

35:34 deve estar pronto para agir como um leão e uma raposa, inspirar o medo em vez do amor e até mesmo quebrar a palavra dada. Essa imagem consolidou por séculos a reputação de Maquiavel como um cínico e mestre de tiranos. No entanto, hoje quero apresentar a vocês um outro Maquiavel. O Maquiavel republicano patriota, que acredita apaixonadamente na força do povo e na superioridade do governo livre. O paradoxo reside no fato de que praticamente ao mesmo tempo em que escrevia em seu gabinete isolado os capítulos breves e incisivos de O Príncipe, ele trabalhava em outra obra, muito mais volumosa e fundamental. eram

36:20 os discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. Se o príncipe é um manual de cirurgia política de emergência escrito para um único homem em uma situação de crise, os discursos são um estudo profundo sobre a saúde e a longevidade do organismo político, dedicado àquela que era, em sua visão, a forma ideal de governo, a república, o retorno aos jardins Russelai. Após um ano de exílio forçado em sua propriedade rural, Maquiavel recebeu permissão para retornar à Florença, embora sem o direito de ocupar cargos públicos. Na cidade, ele encontrou um novo refúgio intelectual. Passou a ser convidado para

37:06 as reuniões de um círculo de jovens aristocratas republicanos cultos que se encontravam nos jardins Orti Oricelari, pertencentes à nobre família Russelai. Para esses jovens que sonhavam com o renascimento dos ideais republicanos, Maquiavel, com sua colossal experiência política e profundo conhecimento da história, era uma lenda viva. Ali, nas alamedas sombreadas dos jardins, em conversas livres sobre política, história e literatura, ele lia para eles capítulos de seus discursos. Foi justamente a esses amigos, Cózimo, Rosselai, Isanobe e Bonelmte, que ele dedicou sua obra. A atmosfera desses encontros diferia

37:52 drasticamente da solidão desesperada na qual nasceu o príncipe. Os discursos são o fruto de reflexões tranquilas e discussões amigáveis. Por que Roma? Lições da história antiga. Como ponto de partida para suas reflexões, Maquiavel escolheu a história de Roma desde a fundação da cidade de Tito Lívio, ou mais precisamente seus primeiros 10 livros que abrangem o período desde a fundação de Roma até o início das guerras samnitas. Por que justamente a República Romana? Para Maquiavel e seus contemporâneos humanistas, a antiguidade não era apenas uma coleção de textos antigos, era uma era de ouro, uma fonte de sabedoria,

38:38 virtude e, o mais importante, de exemplos a serem imitados. E a República Romana era, para ele, a maior criação política da história da humanidade. Um estado que durou vários séculos, expandiu-se constantemente, superou gravíssimas crises internas e externas e alcançou um poder sem precedentes. Maquiavel acreditava que, ao estudar as causas da grandeza de Roma, seria possível extrair lições aplicáveis também à Itália de seu tempo. Ele abordava na história não como um antiquário, mas como um analista político em busca de padrões e receitas práticas. O povo é mais sábio que o príncipe. A apologia da república. A primeira e

39:25 principal coisa que impressiona nos discursos depois de O Príncipe é a profunda fé de Maquiavel na sabedoria e na confiabilidade do povo. Se em o príncipe ele aconselhava o governante a não confiar na plebe, aqui ele afirma exatamente o oposto. O povo em geral é mais constante, mais honesto e mais sábio do que qualquer governante absoluto, escreve ele, e faz julgamentos mais corretos do que um príncipe. A voz do povo, em sua opinião, não é comparada em vão à voz de Deus. O povo entende melhor de questões gerais. E se lhe mostrarem dois oradores igualmente eloquentes, um dos quais propõe algo bom

40:10 e o outro algo ruim, o povo quase sempre escolherá o primeiro. É claro que o povo pode errar nos detalhes, mas no essencial ele sempre busca o bem. Já o príncipe, movido por suas paixões e ambições, é muito mais propenso a erros e à tirania. É exatamente por isso que a República, onde o poder não pertence a uma única pessoa, mas a todo o povo, é uma forma de governo mais duradoura e bem-sucedida do que a monarquia. A República se adapta melhor às circunstâncias em mudança, pois nela sempre existem pessoas diferentes, com diferentes talentos e temperamentos que podem chegar ao poder no momento certo. Ela gera mais cidadãos grandes e

40:56 virtuosos, já que um estado livre incentiva os talentos e dá a cada um a oportunidade de se destacar pelo bem da pátria comum. o benefício do conflito, a força criativa das discórdias. Outra ideia revolucionária de Maquiavel, exposta nos discursos, é a sua visão sobre os conflitos internos na sociedade. Antes e depois dele, a maioria dos pensadores políticos acreditava que o estado ideal é aquele em que reinam a paz, a harmonia e a unidade. Quaisquer discórdias internas e lutas de facções eram vistas como uma doença, como um sinal de decadência. Maquiavel rejeita firmemente esse ponto de vista.

41:43 Usando o exemplo de Roma, ele prova que o conflito entre a aristocracia e o povo não foi uma fraqueza, mas a principal causa da grandeza e da liberdade de Roma. A luta constante dos plebeus por seus direitos e a relutância dos patrícios em ceder seu poder levaram à criação de leis e instituições perfeitas. Por exemplo, foi exatamente como resultado dessa luta que foi criado o cargo dos tribunos da Pleb, que defendiam os interesses do povo comum e tinham poder de veto sobre as decisões do Senado. Essa instituição se tornou a mais importante garantia da liberdade romana. Assim, o conflito devidamente organizado e institucionalizado não destrói o Estado, mas, pelo contrário, o

42:31 torna mais forte, flexível e justo, impedindo que qualquer um dos grupos sociais usurpe todo o poder. Religião civil e crítica ao cristianismo. Em o príncipe, Maquiavou via a religião de forma puramente instrumental, como um meio para controlar a multidão. os discursos, ele desenvolve esse pensamento criando o conceito de religião civil. Analisando a religião dos antigos romanos, ele observa que ela era inseparável do Estado e servia aos seus interesses. Ela cultiva nos cidadãos virtudes como a coragem, a fidelidade ao juramento, a firmeza, o amor à pátria e a disposição de se sacrificar pela sua

43:16 glória. Os ritos religiosos cimentavam a sociedade, tornavam os soldados destemidos em batalha e os cidadãos cumpridores da lei. E aqui Maquiavel lança uma crítica contundente ao cristianismo. Ele acredita que a religião cristã, na forma como é pregada pela Igreja, enfraqueceu o mundo e o entregou ao poder de Nalas. Por quê? Porque o cristianismo exalta as virtudes da humildade, da contemplação e do desprezo pelos assuntos mundanos. Ele ensina a suportar o sofrimento e não a lutar contra ele. Ele aponta o caminho para a salvação nos céus e não para a conquista da glória na terra. Como resultado, diz Maquiavel, as

44:03 pessoas se tornaram mais brandas, passivas e menos capazes de defender a sua liberdade. A religião antiga divinizava grandes comandantes e estadistas, enquanto o cristianismo canoniza santos humildes e contemplativos. Isso, na opinião dele, levou ao declínio da virtude cívica e da vontade política. Como conciliar o príncipe e os discursos? Pois bem, temos diante de nós dois maquiavéis. Um é o conselheiro do príncipe, que prega a força e o engano. O outro é um republicano fervoroso que acredita na sabedoria do povo. Como uma única pessoa pode escrever dois livros

44:49 tão diferentes? Essa pergunta atormenta os pesquisadores há cinco séculos. Existem algumas versões principais. A primeira, o príncipe é um livro para situações de emergência. De acordo com esse ponto de vista, que é o mais difundido, não há contradição real entre as duas obras. Elas simplesmente foram escritas para circunstâncias políticas diferentes. Os discursos descrevem um estado saudável e ideal. A república, essa é a norma. Já o príncipe é uma receita para a patologia. Ele é necessário quando o Estado está atolado em corrupção e anarquia, quando está fragmentado e sob a ameaça de uma

45:34 invasão externa, como a Itália contemporânea de Maquiavel. Em tal situação, é impossível criar ou renascer uma república. É preciso um governante cirurgião forte e até mesmo cruel que imponha a ordem com mão de ferro, unifique o país e crie bases sólidas. E somente depois que ele realizar esse trabalho sujo, porém necessário, será possível passar para o governo republicano. Assim, o príncipe é um mal necessário, o primeiro passo no caminho para o ideal republicano. Segunda, o príncipe, sátira e desmascaramento. Existe também uma versão mais radical que em sua época foi compartilhada por

46:20 pensadores como Espinoza e Rousseau. Segundo ela, Maquiavel permaneceu republicano sempre. Sobre o príncipe, ele escreveu com uma intenção secreta, não para ajudar o tirano, mas para desmascarar os métodos da tirania diante do povo. Dando ao príncipe maus conselhos, ele na verdade mostrava aos cidadãos o que eles deveriam temer. "Este é o livro dos republicanos", dizia Roussea fingindo dar lições aos reis, ele deu grandes lições aos povos. Terceiro, evolução pessoal. Alguns acreditam que a diferença de Tom se explica pela mudança nas circunstâncias de vida do próprio Maquiavel. O príncipe foi escrito em um

47:07 período de desespero, na esperança de voltar à política a qualquer custo e conseguir um lugar na corte dos MIC. Já os discursos foram escritos em um ambiente mais tranquilo para um círculo de amigos com ideias semelhantes, onde ele podia expressar suas verdadeiras convicções sem se preocupar com a censura. Qualquer que seja a versão verdadeira, uma coisa é óbvia. Reduzir todo o legado de Maquiavel a apenas o príncipe significa distorcer grosseiramente e simplificar o seu pensamento. Ele era um pensador complexo e multifacetado que compreendia que a política é um mundo de escolhas trágicas, onde não há respostas simples. Ele era um patriota que via na

47:53 República a melhor forma de governo, mas ao mesmo tempo tinha a consciência sóbria de que para alcançá-la ou salvá-la, às vezes são necessários métodos distantes dos ideais republicanos. Após escrever suas obras principais, a vida de Maquiavel não terminou. Ele continuou criando, escreveu peças de teatro, poemas, obras históricas e até os últimos dias não abandonou a esperança de servir novamente a sua natal florença. Sobre seus trabalhos tardios, sobre seu breve e trágico retorno à política e sobre seu legado imortal, falaremos na parte final da nossa palestra, parte 5.

48:38 últimos anos, o legado literário e a vida eterna do maquiavelismo. Senhoras e senhores, chegamos à parte final da nossa narrativa sobre a vida e as ideias de Nicolau Maquiavel. Acompanhamos seu caminho desde o ativo secretário da República Florentina até o exilado, que no silêncio do gabinete criou obras imortais, embora contraditórias. Vimos como em seu pensamento coexistiam dois polos aparentemente incompatíveis. O realismo implacável de O príncipe e a fé apaixonada nos ideais republicanos dos discursos. Agora cabe a nós descobrir como se desenrolou seu destino após a escrita desses grandes livros e como suas ideias partiram em uma longa

49:25 jornada, através dos séculos, repleta de glória e maldições. O retorno às boas graças, o trabalho literário a serviço dos Médice e a vida afastada da política eram insuportáveis para Maquiavel. Ele não desistia das tentativas de voltar ao serviço. Escrevia cartas a amigos influentes. Buscava qualquer oportunidade de aplicar novamente seus conhecimentos para o bem de sua cidade natal, mesmo que sob o domínio dos médic. Aos poucos, o gelo começou a derreter. Os governantes de Florença, o cardeal Júlio de Médice, futuro Papa Clemente VI, reconheciam o valor da mente e da experiência de

50:11 Maquiavel. Eles não confiavam nele o suficiente para devolvê-lo a cargos chave na chancelaria, mas estavam prontos para usar seus talentos em outras áreas. No ano de 1520, a Universidade de Florença, por encomenda do cardeal Júlio, encarregou Maquiavel de escrever a história de Florença. Era uma encomenda complexa e delicada. Por um lado, Maquiavel recebeu o tão esperado reconhecimento oficial e uma fonte de renda. Por outro, ele, um republicano convicto, tinha de escrever a história da cidade para seus antigos adversários políticos. A família Médice, que naturalmente esperavam que essa obra glorificasse seus antepassados e

50:57 justificasse seu poder. Maquiavel abordou essa tarefa com sua astúcia e sabedoria habituais. Ele cumpriu a encomenda, mas fez isso à sua maneira. Em vez de escrever um panegírico bajulador, ele criou uma obra histórica profunda e inovadora. Ele mostrou que toda a história de Florença é a história de contínuas discórdias internas e lutas de facções. E foram justamente essas discórdias que, ao contrário das romanas, não levavam à criação de leis sólidas, mas apenas ao exílio e à morte dos derrotados, que se tornaram a causa da fraqueza da cidade. Ao descrever a ascensão dos médice, ele o fez com uma

51:43 objetividade aparente. Mas nas entrelinhas, o leitor atento podia captar uma crítica sutil e a nostalgia pela liberdade republicana perdida. Da política ao teatro e à guerra. Nesses [limpando a garganta] anos, Maquiavel revelou-se não apenas como pensador político e historiador, mas também como um dos maiores dramaturgos do renascimento italiano. Por volta de 1518, ele escreveu sua famosa comédia, Amandrágora. Esta peça brilhante e abertamente cínica, teve um sucesso estrondoso e até hoje é considerada uma obra prima da dramaturgia italiana. À primeira vista, é uma simples comédia de costumes sobre um jovem aristocrata,

52:28 que com a ajuda de um engano engenhoso, conquista o amor de uma mulher casada. Mas sob a máscara de uma farsa alegre, esconde-se o mesmo mundo de Maquiavel. Os personagens de Amandrágora, desde o jovem amante e seu ajudante interesseiro até o Frade corrompido e o marido tolo, agem guiados exclusivamente pelo egoísmo, pela ganância e pelos prazeres carnais. Eles enganam uns aos outros com facilidade, escondendo-se atrás de palavras sobre honra e religião. Amandrágora é o príncipe transferido do palácio do governante para as ruas da cidade. É mais uma ilustração de sua visão pessimista da natureza humana, onde a virtude vence e a moral revela-se

53:15 apenas um som vazio. Paralelamente à história de Florença, ele escreve o tratado sobre a arte da guerra, publicado em 1520. Esta é a sua única grande obra política impressa em vida. Neste trabalho escrito em forma de diálogo, ele retorna à sua ideia favorita, que já encontramos anteriormente, a necessidade da criação de uma milícia cidadã e da tática de um exército moderno, recorrendo constantemente a exemplos da história militar antiga, a última traição da fortuna. Em meados da década de 1520, parecia que os assuntos de Maquiavel estavam melhorando. Os médices se

54:01 passaram a confiar mais nele, encarregando-o de pequenas missões diplomáticas e militares. Ele estava novamente em ação, sentindo novamente o pulso da vida política. Mas a deusa fortuna, com a qual ele travou um duelo mental durante toda a sua vida, preparava para ele o último e mais cruel golpe. No ano de 1527, a Itália tornou-se novamente palco de uma grande guerra. As tropas do imperador do Sacro Império Romano Germânico, Carlos V, amotinadas pela falta de pagamento, marcharam sobre Roma em 6 de maio de 1527. A cidade eterna foi tomada de assalto e

54:46 submetida até um saque monstruoso que entrou para a história como o saque de Roma. Esse evento abalou todo o mundo cristão. O Papa Clemente VI, no passado cardeal Júlio de Médice, protetor de Maquiavel, foi sitiado no castelo de Santo Ângelo. A notícia da destruição de Roma e da humilhação do Papa Mice chegou à Florença e provocou uma nova explosão de sentimentos republicanos. Os médic foram expulsos da cidade pela segunda vez e a República foi restaurada em Florença. Parecia que ali estava o triunfo. Realizou-se aquilo com que Maquiavel sonhara durante todos os anos de exílio. A república a qual ele servira com fé e lealdade renasceu.

55:35 Ele imediatamente ofereceu seus serviços ao novo governo, esperando ocupar seu antigo cargo de secretário. e então o aguardava a mais amarga decepção de sua vida. Os novos líderes republicanos, jovens e intransigentes, viam nele não um herói da velha república, mas um serviçal dos tiranos Mice. Sua candidatura foi rejeitada. O homem que passou a vida inteira refletindo sobre como criar e preservar um estado livre mostrou-se desnecessário para a República Renascida. foi o colapso de todas as suas esperanças, a morte e o início da lenda, esse golpe o abateu definitivamente. A saúde de Nicolau Maquiavel, já

56:21 debilitada pelos anos, piorou drasticamente. Em 21 de junho de 1527, apenas um mês após a restauração da República, a qual ele não pôde servir, ele faleceu em sua casa em Florença. aos 58 anos de idade. Existe uma lenda contada por seus amigos sobre o sonho de Maquiavel antes de morrer. Ele sonhou que via uma multidão de pessoas pobres e maltrapilhas e lhe disseram que aqueles eram os justos indo para o paraíso. Depois ele viu outra multidão de homens majestosos, entre os quais estavam Platão, Plutarco e Tácito. Eles discutiam assuntos elevados e

57:07 política. Disseram-lhe que aqueles eram os condenados indo para o inferno. Quando lhe perguntaram para onde ele gostaria de ir, Maquiavel respondeu sem hesitar que preferiria ir para o inferno para conversar sobre política com as grandes mentes da antiguidade do que ir para o paraíso para se entediar na companhia dos justos. Essa história, embora fictícia, reflete da melhor maneira possível a essência de sua personalidade. Para ele, o conhecimento das leis da vida terrena era mais importante do que as promessas de bem-aventurança após a morte, imortalidade e maldição. O legado de Maquiavel. A verdadeira vida de Maquiavel começou após a sua morte. No

57:53 ano de 1532, 5 anos após o seu falecimento, o seu O Príncipe foi impresso pela primeira vez. O livro espalhou-se instantaneamente pela Europa e causou uma tempestade. Começou a lenda negra de Maquiavel. A Igreja Católica viu em suas obras uma ameaça direta à sua autoridade moral e incluiu todos os seus escritos no índice dos livros proibidos. Para os protestantes, especialmente na Inglaterra, o nome de Maquiavel tornou-se sinônimo de italiano papista, traiçoeiro e ímpio. No teatro elizabetano, em Shakespeare e seus contemporâneos, Maquiavel é o vilão arquetípico que se deleita com intrigas

58:38 e assassinatos. Seu nome transformou-se no substantivo comum maquiavelismo significando uma política cínica e sem princípios, onde os fins justificam quaisquer meios. Ao longo dos séculos, ele foi amaldiçoado como mestre do mal e advogado do diabo. Mas o tempo passou e a atitude em relação a Maquiavel começou a mudar. Pensadores do Iluminismo, como Espinoza e Rousseau, viram nele algo diferente. Eles foram os primeiros a sugerir que o príncipe não é um manual para tiranos, mas, pelo contrário, um livro para os povos, que desmascara as engrenagens secretas da tirania. No século XIX, na

59:25 época da unificação da Itália, Maquiavel passou a ser visto como profeta da unidade italiana, um patriota que sonhava com um estado nacional forte. Hoje, mais de cinco séculos depois, os debates sobre ele não cessam, mas independentemente do que o consideremos cínico ou patriota, realista ou republicano, uma coisa é certa. Nicolau Maquiavel realizou uma revolução copernicana no pensamento político. Ele foi o primeiro a separar a política da teologia e da oral tradicional, transformando-a em uma ciência independente, cujo objeto é a luta real pelo poder. Ele forçou a humanidade a

1:00:11 encarar uma verdade incômoda. O mundo da política é frequentemente cruel, injusto e imoral. Ele colocou diante de nós questões eternas para as quais até hoje não há respostas definitivas. O que é mais importante? A pureza moral do governante ou o bem-estar do Estado? As virtudes cristãs são compatíveis com uma governação eficaz e um grande objetivo justifica meios duvidosos. Maquiavel não foi nem santo, nem demônio. Ele foi um homem de sua época turbulenta e cruel. Um médico que, vendo sua pátria gravemente doente, ofereceu a ela um remédio amargo e perigoso. Seu legado não é um conjunto de receitas

1:00:58 prontas, mas um desafio eterno à nossa mente e consciência. Ele nos obriga a pensar, a duvidar e a olhar com sobriedade para o mundo em que vivemos. E enquanto existir o poder, enquanto as pessoas lutarem por liberdade e ordem, enquanto houver a escolha entre o que deveria ser e o que é, até lá, Nicolau Maquiavel, secretário da República Florentina, permanecerá sendo nosso eterno e inquietante interlocutor. Obrigado pela atenção,

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