Breve Resumo
O vídeo narra a luta dos Guarani Kaiowá no Mato Grosso do Sul pela retomada de suas terras ancestrais, explorando a história de violência, expropriação e resistência desde o século XX até os dias atuais. Aborda a invisibilidade histórica dos indígenas, a atuação do SPI e da FUNAI, o impacto do agronegócio e as tentativas de aniquilação cultural e territorial.
- Retomada de terras
- Violência e expropriação
- Resistência cultural e territorial
Introdução: A Luta Invisível dos Guarani Kaiowá
O documentarista relata sua experiência inicial no Mato Grosso do Sul em 1988, filmando as assembleias dos Guarani e Kaiowá, onde discutiam a retomada de suas terras. Sem entender a língua, ele percebeu a importância do movimento, acompanhando-o por 10 anos antes de se dedicar à formação de cineastas indígenas. Anos depois, o conflito se intensificou, com assassinatos e ameaças aos direitos indígenas, levando-o a retornar para entender as origens desse movimento.
O Retorno à Aldeia Jaguapiré e as Memórias dos Despejos
O documentarista retorna à aldeia Jaguapiré após 25 anos, acompanhado por antigos parceiros, levando consigo filmagens e documentos que comprovam os despejos e violências sofridas nas décadas de 1980 e 1990. Celso, um dos acompanhantes, é reconhecido como Cocu Iguaçu, nome dado pelos índios ao projeto de roças coletivas. As memórias dos despejos despertam lembranças de violências passadas, levantando a questão de como as terras Guarani foram tituladas para terceiros.
A Trajetória Histórica e a Pacificação Forçada
Após o confronto com jesuítas e bandeirantes, os Caiovás se refugiaram nas matas no século XVIII, permanecendo isolados por cem anos. No século XIX, sertanistas destacaram o espírito pacífico e colaborativo dos índios ao requisitar terras ao império. A população Guarani e Caiová era estimada em 40 mil índios, disseminados em um vasto território.
O Calvário dos Despejos e Retomadas em Jaguapiré
Os filhos do Tecorajaguapiré enfrentaram despejos e retomadas, como o ocorrido em 1985, quando a aldeia foi invadida e destruída. Uma semana depois, os índios retornaram e reocuparam a área sob intimidações. A Funai reconheceu a área como território Caiová, mas a batalha se tornou judicial, com despejos e retomadas se sucedendo. Acuados, os índios resistiram até a morte, e a justiça suspendeu o despejo.
A Guerra do Paraguai e a Expropriação Territorial
Emília Romero fugiu da Guerra do Paraguai, conflito que resultou na perda de território paraguaio para o Brasil, incluindo o Cone Sul do Mato Grosso do Sul, área de grande importância para os Guarani e Caiová. O Império desconsiderou os direitos dos indígenas ao ocupar o território, enquanto os Caduveu ganharam uma reserva por sua participação na guerra. A exploração da erva-mate intensificou a ocupação das terras Guarani e Caiová, que não foram reconhecidas como tal.
A Retomada Definitiva de Jaguapiré e a Judicialização
O retorno ao Jaguapiré coincide com a comemoração dos 21 anos de sua retomada definitiva. As áreas reconhecidas como indígenas pela Funai foram contestadas na justiça pelos fazendeiros. Em 1994, o Procurador-Geral da República visitou as áreas para acelerar os processos de demarcação, como a comunidade de Sete Serros, onde os índios viviam confinados em apenas quatro hectares, sofrendo com a violência dos capangas.
A Visita do Procurador e a Retomada de Terras
Após a visita do procurador, os índios retomaram os 9 mil hectares demarcados e despejaram os funcionários da fazenda. Em outra área, o Jaguari, os índios retomaram a posse de 400 hectares, escoltados pela Polícia Federal e na presença do procurador. O dono da fazenda alegou que a área não era indígena, apresentando documentos de arrendamento da Companhia Mate Laranjeira desde 1882.
A Companhia Mate Laranjeira e a Mão de Obra Indígena
O advogado da fazenda alegou que o império tratou as terras dos Guarani Caiová como devolutas, e a Nova República ampliou o arrendamento da Companhia Mate Laranjeira. A indústria extrativista da erva-mate se tornou o maior empreendimento da região, utilizando a mão de obra indígena como recurso natural. A companhia construiu cidades na selva, mas os índios eram invisíveis aos olhos dos historiadores, sendo confundidos com paraguaios.
A Invisibilidade e a Resistência nos Acampamentos
Os Guarani Kaiová, acampados às margens das rodovias, parecem não caber mais em seu próprio território, persistindo em sua invisibilidade histórica. O acampamento de Apicai, liderado pela cacique Damiana, é um caso extremo de resistência, reclamando parte da fazenda arrendada pela usina São Fernando.
A Luta Religiosa e a Criação do SPI
O sentimento de pertencimento aos territórios e a convicção religiosa de que a Terra pertence ao Criador fundamentam a caminhada dos Guarani Kaiowá. A figura do índio só aparece com a criação do SPI em 1910, liderado por Rondon, que visava pacificar as relações com as populações indígenas para permitir a colonização da fronteira oeste.
O SPI e a Assimilação Cultural
O SPI, inspirado nas missões salesianas, visava afastar os índios de seus costumes, nomeando capitães para organizar milícias e impor a nova ordem. A escola do posto tinha o papel de apagar as línguas nativas e ensinar os índios a trabalhar, tornando o SPI o agenciador da mão de obra indígena. Apesar do caráter humanitário, o projeto carregava a soberba de uma cultura etnocêntrica.
A Demarcação das Reservas e a Expropriação
Os Guarani Kaiová foram enquadrados como vivendo em pacífica promiscuidade com os civilizados, e o SPI delimitou oito pequenas reservas para eles, oficializando a expropriação da quase totalidade de seu território. As reservas se tornaram áreas de exílio e confinamento, e a demarcação do SPI consolidou a ocupação e o boom econômico na região.
A Esperança nas Retomadas e a Luta Contínua
As retomadas são a única esperança de reconstruir o espaço e o modo de vida dos Guarani Kaiowá. Até 2003, 16 tecorra haviam sido reconquistados, e ainda hoje são mais de 30 áreas reclamadas. A vida nos acampamentos e nas reservas é marcada pela violência, suicídio e penúria.
O Sonho do Bem Viver e a Resistência até a Morte
Dispersos em acampamentos e reservas, os Guarani Kaiová não dispõem mais de suas matas, onde sonham praticar o bem viver. O rezador Ambrósio sonha em reunir seus parentes e retornar a Puelitoque, de onde foram expulsos. A comunidade Coelitocuei em Baracay ficou conhecida por anunciar a resistência até a morte diante da iminência do despejo.
A Luta pela Terra e o Sofrimento Contínuo
Os Guarani Kaiowá perderam muitos companheiros de luta e sofrem com a falta de apoio do governo para a demarcação de suas terras. A comunicação com a sociedade civil é importante para pressionar o governo a agir. O governador do Mato Grosso do Sul defende a propriedade privada e critica as ONGs e o CIMI, acusando-os de incitar invasões.
O Vídeo Chocante e a Desigualdade de Forças
Um vídeo mostrando a morte de policiais chocou o congresso, mas a desigualdade de forças no conflito é evidente, com 50 lideranças indígenas assassinadas nos últimos 30 anos, enquanto três policiais foram mortos no mesmo período. Em Itaã, local dos acontecimentos, foi reconstituído os momentos anteriores à cena filmada.
A Versão dos Indígenas e a Venda do Vídeo
Os indígenas relatam que o policial atirou contra eles, e João agiu em legítima defesa. Uma mulher filmou o policial no chão e vendeu o vídeo, que chegou ao governo. A morte do policial é mais um episódio de um embate que dura décadas.
A Marcha para o Oeste e a Colônia Agrícola de Dourados
A marcha para o oeste, lançada por Getúlio Vargas em 1940, impulsionou a expropriação do território Guarani-Caiovar ao criar a Colônia Agrícola Nacional de Dourados, ignorando a presença dos índios e contrariando as constituições que determinavam respeito aos territórios indígenas. A colônia empregou os índios para abrir os lotes que seriam entregues a terceiros, dos quais eles acabariam expulsos.
O Acampamento Pacuritã e a Resistência Contínua
No acampamento Pacuritã, liderado por Bonifácio, os índios enfrentam a fazenda de um ex-tropeiro da Companhia Mate Laranjeira. A casa de reza é constantemente destruída, e a plantação de Bonifácio é o próprio cenário da resistência, com a banana e a mandioca dos índios contra a soja do agronegócio.
A Ditadura e a Criação da FUNAI
A ditadura substituiu o SPI pela FUNAI em 1967, que herdou seus funcionários e seu espírito militar. A FUNAI criou a guarda rural indígena, que ensinava técnicas de abordagem, imobilização e tortura. Bonifácio, do acampamento Pacuritã, foi deportado e preso no presídio Krenak, onde sofreu trabalhos forçados.
A Expansão da Soja e a Crise Humanitária
A expansão da soja e da cana-de-açúcar nas décadas de 1970 e 1980 resultou no desmatamento final da região e em novas deportações das aldeias. As reservas do SPI entraram em colapso, e as crises humanitárias entre os Guarani Kaiová voltaram à tona, com trabalho escravo, guerra interna nas reservas e recordes mundiais de suicídios.
A Queima dos Acampamentos e a Luta pela Terra
Os índios que resistiram às deportações do SPI são empurrados à margem do direito. O acampamento de Apicaí da cacique Damiana foi destruído pela queima da cana da usina São Fernando, levando-os a acampar dentro da fazenda, vivendo em clima de permanente tensão e insegurança.
O Decreto de Emancipação e a Resistência Indígena
A ditadura retomou o projeto de dissolução dos índios na sociedade nacional com o decreto de emancipação, que visava emancipar as terras indígenas. A sociedade civil, a igreja e os índios se mobilizaram e conseguiram barrar o decreto. Marçal de Souza se tornou a primeira voz Guarani Caiová a se fazer ouvir nacionalmente, sendo assassinado em 1983.
A Constituição de 1988 e a Luta pelos Direitos
Em 1988, a questão do índio aculturado voltou a ser motivo de embate político na Assembleia Constituinte. A mobilização dos índios e seus aliados derrubou o artigo que excluía os índios dito aculturados. A Constituição reconheceu aos índios a cidadania pura e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam.
A Assembleia da Tuguassu e a Compreensão Histórica
Em 1988, o documentarista filmou uma assembleia da Tuguassu que só agora foi traduzida, revelando a compreensão dos Guarani Kaiová sobre as intenções do Estado brasileiro de dissolução das populações indígenas. Comunidades Guarani e Caiova de diferentes rios se reúnem para rezarem juntas e receberem instruções para os próximos passos da caminhada.
O Retorno ao Mato Grosso do Sul e os Atropelamentos
O documentarista retorna ao Mato Grosso do Sul para concluir as filmagens, e fica sabendo do atropelamento de um indígena. Atropelamentos criminosos são recorrentes nas proximidades das áreas retomadas.
A Luta pela Terra e a Memória dos Ancestrais
Os Guarani Kaiowá lutam para ocupar toda a sua terra, seguindo o exemplo de seus pais e tios guerreiros. O Brasil comemora os 25 anos da sua constituinte com uma onda de emendas constitucionais que pretende aniquilar as conquistas sociais alcançadas em 88.
A Ofensiva Ruralista e a Ocupação do Congresso
A bancada ruralista no Congresso Nacional articula uma ofensiva para paralisar a ação da FUNAI e votar a PEC 215, que passaria ao Congresso a definição das terras indígenas. Os índios ocupam o Congresso para se fazerem escutar, mas a ofensiva ruralista nas áreas retomadas continua.
A Ordem Judicial e a Resistência Indígena
Diante da ordem judicial de despejo, os indígenas resistem, afirmando que todos são lideranças e que não vão cumprir a ordem. O delegado Alcides afirma que Ivukatu não existe no mapa, mas sim as fazendas Chaparral e Bonanza. Os índios de Ivukatu são os mais de mil guarani que ficaram dispersos rio acima, fora da reserva de Porto Lindo.
A Audiência Pública e a Defesa dos Direitos Indígenas
Em uma audiência pública, representantes da agricultura e do agronegócio discutem a questão indígena. A ministra da Justiça afirma que a FUNAI é um órgão protetivo, mas que é complexo para a instituição fazer a mediação e se antecipar a conflitos. Deputados criticam a FUNAI e defendem a suspensão das demarcações.
A Moratória das Demarcações e a Ocupação de Poelitucue
O governo decreta a moratória das demarcações e desqualifica a FUNAI e os antropólogos. Um ano depois, os acampados de Poelitucue ocuparam a sede da fazenda construída em cima da antiga aldeia, incluindo o velho Ambrósio, que cumpriu sua promessa.
O Ataque aos Acampados e a Testemunha Chave
Os acampados de Poelitocue recebem um ultimato dos pistoleiros, e uma câmera é deixada no local para registrar os acontecimentos. Uma testemunha chave do caso do desaparecimento do cacique Nízio Gomes conta em detalhes o que aconteceu no acampamento Guayvirí, revelando a ação criminosa comandada por fazendeiros.
O Assassinato do Cacique Nízio Gomes e a Impunidade
O cacique Nízio Gomes foi assassinado a queima-roupa no final de 2011, e seu corpo desapareceu. A testemunha relata que a ordem era para chegar atirando e retirar todos os indígenas à força. Dos 23 indiciados pela Polícia Federal no caso Nízio Gomes, 18 tiveram a prisão preventiva decretada, incluindo fazendeiros, um servidor da FUNAI, um advogado e o dono de uma empresa de segurança privada.
A Grande Marcha e a Esperança nos Tecorrá
Dos 60 mil guarani caiu vá existentes hoje, cerca de 15 mil estão nesta grande marcha. Enquanto a vida nas reservas superlotadas do SPI são espaços de violência e depressão, os acampamentos de retomada respiram a esperança de reconstruir um espaço de vida segundo seus preceitos religiosos, que é a própria definição da palavra tecorrá.
O Leilão da Resistência e a PEC 215
O leilão da resistência tinha como propósito arrecadar fundos para contratar mais segurança privada para enfrentar os índios. A PEC 215 visa puxar ao Congresso Nacional a definição das terras indígenas do país.
A Despedida e a Emoção Diante da Luta
O documentarista se despede dos Guarani Kaiowá, emocionado com sua coragem e espiritualidade. Ele registra um batizado de criança e é tomado pela comoção diante da beleza dos seus mantras, do carinho com que tratam seus aliados e da sua alegria de viver para além da penúria material.
O Ataque Final e a Repetição da História
A câmera deixada em Puelitoque registra um ataque cinco dias mais tarde, seguido por 25 novos ataques em outros acampamentos. A história se repete, e a sociedade brasileira precisa assumir a responsabilidade por esta tragédia que se perpetua.

